Alexandra Ferreira
Para as turma 1802 e 1804

Era meio-dia e a caatinga brilhava à luz incandescente do Sol. O pequeno Calango deslizou rápido sobre o solo seco, cheio de gravetos e pedras, parando na frente do majestoso Mandacaru, que apontava para o céu seus espinhos, os grandes braços abertos em cruz.

- Mandacaru! Mandacaru! Eu ouvi os homens conversando lá adiante e eles estavam dizendo que, como a caatinga está muito seca e cor de cinza, vão trazer do estrangeiro umas árvores que ficam sempre verdes quando crescem e estão sempre cheias de folhas.

- Mas que novidade é essa? - falou a Jurema.

- Coisa de gente besta - disse o Cardeiro, fazendo um muxoxo irritado e atirando espinhos para todo lado.

- Eu é que não acredito nessas novidades - sussurrou o pequeno e tímido Preá.

A velha Cobra, cheia de escamas de vidro e da idade do mundo, só fez balançar a cabeça de um lado para o outro e, como se achasse que não valia a pena falar, ficou em silêncio.

E no outro dia, bem cedinho, os homens já haviam plantado centenas de arvorezinhas muito agitadas, serelepes e faceiras, que falavam todas ao mesmo tempo na língua lá delas, reclamando de tudo: do Sol, da poeira, dos bichos e das plantas nativas, que elas achavam pobres, feias e espinhentas. Enquanto falavam, farfalhavam e balançavam os pequenos galhos, que iam crescendo, ganhando folhas e ficando cada vez mais fortes.

Enquanto isso, as plantas da caatinga, acostumadas a viver com pouca água, começaram a notar que essa água estava cada vez mais difícil de encontrar. As raízes do Mandacaru, da Jurema e do Cardeiro cavavam, cavavam e só encontravam a terra seca e esturricada.

O Calango então se reuniu com os outros bichos e plantas para encontrar uma solução. E foi a velha Cobra quem matou a charada:

- Quem está causando a seca são essas plantinhas importadas e metidas a besta! Eu me arrastei por debaixo da terra e vi o que elas fazem: bebem toda a nossa água e não deixam nada para a gente.

- Oxente! - gritou o Calango. - Então vou contar isso aos homens e pedir uma solução.

Mas logo o Calango voltou, triste e decepcionado.

- Os homens não me deram atenção - disse. - Falaram que eu não tenho instrução, não fiz universidade e que eu estou atrapalhando o progresso da caatinga.

E todos os bichos e plantas ficaram tristes, mas estavam com tanta sede que nem sequer puderam chorar: não havia água para fabricar as lágrimas. Por muitos dias ficaram assim e quando estavam à beira da morte houve um movimento: era o Preá, que levantou o narizinho, farejou o ar e, esquecendo a timidez, gritou:

- Estou sentindo cheiro de água!

- É mesmo! - gritaram todos.

- O que será que aconteceu? - perguntou a Jurema.

- Eu vou ver o que foi - e o Calango saiu veloz, espalhando poeira para todos os lados.

O Mandacaru estirou os braços, espreguiçou-se e sorriu:

- Estou recebendo água de novo! Hum... É muito bom! Mas vejam! O Calango está de volta com novidades!

E espichando meio palmo de língua de fora, morto de cansado pela carreira, o Calango contou tudo.

- As pequenas bandidas verdes, depois de beber quase toda a água da caatinga, estavam ameaçando a água dos rios e dos açudes perto das cidades. Os homens então viram o perigo e deram fim a todas elas. Estamos salvos!

E todos ficaram alegres, sentindo a água subir pelas raízes. Olharam para o céu azul da caatinga, aquele céu claro, o Sol brilhante, olharam uns para os outros e viram que eram irmãos, na mesma natureza, no mesmo tempo, na mesma Terra.

E a velha Cobra, desenroscando-se toda lentamente, piscou o olho e concluiu:

- É como dizia minha avó: cada macaco no seu galho!


Conto de Clotilde Tavares, ilustrado por Flavio Morais

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/tempo-bichos-falavam-634274.shtml

12 Responses
  1. Galerinha das turmas 1802 e 1804 daremos início aos nossos trabalhos de releitura de xilogravuras com temáticas sobre o sertanejo, o matuto, a caatinga, as fábulas do nordeste brasileiro e seu folclore amanhã, dia 04/04/2012. "Vamo que vamo galera!" Quero mostrar muitas coisas lindas por aqui. Bjs.


  2. Essa é para o pessoal da 1802 e da 1804 (ou para os alunos que quiserem tentar): Pensem no significado do texto acima, na importância de conhecermos o tipo de clima, de terreno para cada planta, mas, enquanto isso, respondam: quais as duas figuras de linguagem predominantes no texto? O primeiro que postar a resposta correta, ganha um brinde. Não vale pedir ajuda, hein!?! Que tal?


  3. Só para retificar: uma figura predominante, tá? :)


  4. AAAAAHHHHHHH!!!! Adorei Patrícia Menezes! Se eles demorarem eu posso postar e ganhar o brinde? Rs...



  5. matheus Says:

    1)cada macaco no seu galho!
    2)sentindo a água subir pelas raízes.

    matheus vital
    t:1804


  6. Valeu a tentativa, meninos, continuem tentando. Deem uma olhadinha no caderno e revejam o conteúdo sobre figuras de linguagem...Tchauzinho!!!


  7. Anna Beatriz Says:

    1:Personificação
    2:Antítese

    Nome: Anna Beatriz de Souza Pereira
    Turma: 1804
    Número: 05


  8. Anna, acho que você está quase ganhando o brinde, só falta explicar como você vê essas figuras no texto (eu quero apenas a primeira). Caso alguém explique antes, ganha o brinde, tá?


  9. Anna Beatriz Says:

    Personificação é dar sentimentos ou ações próprias dos seres humanos a seres inanimados ou seres irracionais, pois na história toda os bichos falam (característica humana).

    Nome: Anna Betriz de Souza Pereira
    Turma: 1804
    Número: 05



  10. Coisa linda ver a a participação dos nossos internautas blogueiros. S2


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